top of page

Um Brasil Amefricano? (Notas inacabadas)

  • Foto do escritor: Lab Rachadura
    Lab Rachadura
  • 25 de ago. de 2024
  • 3 min de leitura



Em agosto, um dos temas que mais vi circular nesta rede foi a garra das mulheres, principalmente mulheres negras, na disputa e consequente conquista de medalhas nas Olimpíadas. Na ginástica artística, que acompanhei de perto, uma das diferenças marcantes entre (as mais comentadas) Rebeca Andrade e Simone Biles é o quanto de investimento cada uma recebeu ao longo da sua carreira e onde chegaram. Investimento de grana, mas também de outros incentivos. É discrepante, sabemos.


Bem distante de qualquer incitação competitiva (pq este tema jamais seria proposto aqui, você sabe!), vale sempre pensar na importância simbólica de duas mulheres negras em diáspora ganharem esse nível de divulgação em torno de conquistas que cabem diretamente ao corpo delas, ao menos naquele contexto. Ao corpo e ao que fazem com o tempo delas.


Assisti uma aula com a professora Leda Maria Martins no Instituto de Letras da UFBA, na disciplina ministrada pelas professoras Denise Carrascosa e Florentina Souza, onde ela falava sobre o olhar de Simone para Rebeca e a reciprocidade que expunha, fazendo um paralelo com a falta de reciprocidade que há, ainda hoje, na relação intelectual entre mulheres negras estadunidenses e brasileiras. Esta é uma discussão que cresceria demais este texto, mas não poderia ocultá-la aqui, já que assistindo ao vivo a montagem do pódio com Rebeca Andrade onde ela ganhou o ouro, pensei de pronto: as estadunidenses lendo Lélia Gonzalez. 


Leda Maria Martins, como sua genialidade, traduziu toda essa sensação em uma única palavra: reciprocidade.


Faz tempo que venho observando o seguinte: na linha ““substitutiva”” das grandes vozes nacionais, as expressões que surgem também vêm do corpo das mulheres negras e indígenas. Luedji Luna, Liniker, Duquesa, Bebé, Tasha&Tracie, Tássia Reis, Áurea Semiséria, Katu Mirim, Cronista do Morro, Kae Guajajara… são essas as vozes que têm feito o que hoje podemos chamar de música popular brasileira com a sofisticação que só o Brasil sabe entregar. E só poderiam ser elas. Quem mais?


Se pensarmos a música também como uma representação, até que ponto isso não nos leva a pensar na construção de um Brasil que se faz a partir da concepção Amefricana? O que essas mulheres tem falado sobre as suas experiências e ecoado através das suas vozes não nos diz sobre a construção de outra cara para o Brasil?


Sobre a Amefricanidade, Lélia Gonzalez diz que:


Seu valor metodológico, a meu ver, está no fato de permitir a possibilidade de resgatar uma unidade específica, historicamente forjada no interior de diferentes sociedades que se formam numa determinada parte do mundo. Portanto, a Améfrica, enquanto sistema etno-geográfico de referência, é uma criação nossa e de nossos antepassados no continente em que vivemos, inspirados em modelos africanos. Por conseguinte, o termo amefricanas/amefricanos designa toda uma descendência: não só a dos africanos trazidos pelo tráfico negreiro, como daqueles que chegaram à AMÉRICA muito antes de Colombo. Ontem como hoje, amefricanos oriundos dos mais diferentes países têm desempenhado um papel crucial na elaboração dessa Amefricanidade que identifica, na Diáspora, uma experiência histórica comum que exige ser devidamente conhecida e cuidadosamente pesquisada. Embora pertençamos a diferentes sociedades no continente, sabemos que o sistema de dominação é o mesmo em todas elas, ou seja: o racismo, essa elaboração fria e extrema do modelo ariano de explicação, cuja presença é uma constante em todos os níveis de pensamento, assim com parte e parcela das mais diferentes instituições dessas sociedades. (em A categoria político-cultural da Amefricanidade)

Quantos elementos da categoria Amefricanidade nos ajudam a pensar as representações sobre o Brasil consturadas fio a fio por mulheres negras? Em que medida a reciprocidade proposta por Leda Maria Martins não vem se delineando também através da música?


(...)



Reuni aqui alguns lançamentos que viraram a minha cabeça (pra citar a Big Marrom) nos últimos dias e meses, mas que certamente não irão se restringir a um cálculo algorítmico de viralização. Elas são babado mesmo, vieram pra ficar:



  • Taurus, Vol. 2 - Duquesa

  • Big Mama - Áurea Semiséria

  • CURA - Katu Mirim

  • Caju - Liniker

  • Salve-se - Bebé

  • Asfalto Selvagem - Tássia Reis

  • Grande - Iza Sabino



(Este texto precisa ser finalizado e editado!).

 
 
 

Comments


bottom of page