Sentindo Maya Angelou
- Lab Rachadura
- 16 de fev. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de fev. de 2024
Visceral é a palavra que sempre acompanha as minhas inconclusas tentativas de descrever como a escrita de Maya Angelou me atinge. Se a condição de sujeita é definida também pela oportunidade de tudo sentir e admitir, ela representa em seus textos tanto a sua posição de sujeita (enquanto processo de negação da imposição de objeto, como tanto nos ensinaram bell hooks e Grada Kilomba), quanto o convite para que, em qualquer lugar no mundo, as mulheres negras a reivindique também.
Autobiográfica em tantas camadas, ela nos convoca para uma imersão no próprio corpo através da memória – no último livro que li, ela diz algo do tipo: “quando uma memória permanece viva, é porque ela tem alguma coisa para me ensinar”, e, em alguma medida, o costurar da sua poesia permanece em quem lê como um lembrete, como um: viva, construa uma vida! Ou um “experimente, não mata”, para citar Moises Alves.
Choro, riso, raiva e angústia são reações que me tomaram quase ao mesmo tempo em todos os seus livros, sobretudo o Mamãe, eu e mamãe e o Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Mas no livro que reúne todos os seus poemas, senti bem devagarinho... é o caso de degustar, e, como me ensinou o meu avô, é bom comer e sentir a barriga um pouco vazia, pra ficar leve, não precisa encher tudo de uma vez (envelhecer deve ensinar a lidar com a falta).
Por essas e outras trago aqui três dos seus poemas que, ao meu ver, versam sobre algumas formas de experienciar o amor (ou a falta dele). Tema que no “Não trocaria minha jornada por nada” aparece quase sempre atrelado a algum senso de limite. Todos os poemas estão reunidos no livro Maya Angelou – Poesia completa, publicado pela editora Astral Cultural, traduzidos por Lubi Prates.
I.
Um tipo de amor, dizem
É verdade que as costelas sabem
Distinguir o coice de um animal do
Soco de um amante? Os ossos
Machucados lembram bem
Do choque súbito, do
Impacto forte. As pálpebras inchadas
E os olhos tristes não falam sobre
Um romance perdido, mas de dor.
O ódio geralmente é confuso. Seus
Limites estão em zonas além de si. E
Os sádicos não aprenderão que
O amor, por sua natureza, causa uma dor
Inigualada na tortura.
(Maya Angelou, p.137)
II.
Um brinde à recomposição
Eu fui numa festa
lá em Hollywood,
A atmosfera era péssima
mas as bebidas estavam boas
e foi onde ouvi você rir.
Então, eu fiz um cruzeiro
num velho navio grego,
A tripulação era divertida
mas os convidados não eram descolados
foi onde encontrei suas mãos.
Numa caravana
para o Saara,
O sol acertava como uma flecha
mas as noites eram grandiosas,
e foi assim que eu encontrei seu peito.
Numa tarde no Congo
onde o Congo termina,
Eu me encontrei sozinha, ah
mas eu fiz alguns amigos,
e foi onde eu vi seu rosto.
Eu tenho dedicado
todo meu tempo para reunir
partes suas que flutuam
ainda descoladas.
E você não vai se recompor
Para
Mim
NENHUMA VEZ?
(Maya Angelou, p. 77-78)
III.
Prelúdio para uma despedida
Ao seu lado, de bruços,
minha pele nua resiste
ao toque.
No entanto, é você
quem se afasta.
O fato velado é:
O terrível medo da perda
não é suficiente para fazer
um amor em fuga
permanecer.
(Maya Angelou, p.215)
Referências mencionadas
Maya Angelou - Poesia Completa - Tradução de Lubi Prates, publicação da Editora Astral Cultural
Maya Angelou - Eu sei por que o pássaro canta na gaiola - Tradução de Regiane Winarski, publicação da Editora Astral Cultural
Maya Angelou - Mamãe e Eu e Mamãe - Tradução de Ana Carolina Mesquita, publicação da Editora Rosa dos Tempos
Maya Angelou - Não trocaria minha jornada por nada - Tradução de Julia Romeu, publicação da Editora Nova Fronteira
Grada Kilomba - Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano - Tradução de Jess Oliveira, publicação da Editora Cobogó
bell hooks - Olhares Negros: raça e representação - Tradução de Stephanie Borges, publicação da Editora Elefante
Moisés Alves - Onde late um cachorro doido - Editora circuito
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