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"Nossos corpos estão preparados para se recuperar": entrevista com Ani Ganzala

  • Foto do escritor: Lab Rachadura
    Lab Rachadura
  • 21 de ago. de 2024
  • 5 min de leitura


Na entrevista “Nossos corpos estão preparados para se recuperar”, realizada por Crislane Rosa e Luana Oliveira e publicada na REBEH em 2022, Ani Ganzala fala sobre diversos temas que perpassam as suas obras.


Negra, mãe, sapatão e artivista decolonial, a soteropolitana Ani Ganzala é reconhecida por elaborar, em suas aquarelas e graffitis, uma representação das encruzilhadas que constituem os corpos negros, sapatão, candomblecistas, gordos, e tantos outros. Ela se apropria de diversos recursos estéticos para retratar não apenas o cotidiano à sua volta, mas as cosmovisões produzidas pelo encontro destas identidades. No momento em que passamos por uma grave crise sanitária, social e econômica no Brasil, com a perda de mais de 553 mil vítimas para a Covid-19, nesta entrevista Ani Ganzala nos oferece um bálsamo para atravessar tempos difíceis, apontando saídas coletivas produzidas por um saber ancestral. Ela também desenvolve sua percepção acerca de temas específicos, já mencionados em sua escrita de si, como a maternidade não recomendada, o amor sapatão e o artivismo.


Uma das perguntas se referem ao modo como ela representa multiplicidade subjetiva de pessoas negras e indígenas. Nós perguntamos:


Além da expressão dos corpos em si, você cria uma complexidade sobre a

subjetividade dessas pessoas, algo que durante muito tempo foi negado e reduzido

apenas ao “corpo”. Como é que se dá esse processo?



Ani Ganzala respondeu:


Tem a ver com a humanização, que inclusive é algo que está sendo debatido muito ultimamente por artistas e intelectuais negros e LGBTQI, sobre o que é ser humano, mas nesse momento pra mim é muito importante tanto ver a mim mesma enquanto um humana, como representar essa humanidade que nós carregamos, né? Porque quando a gente pensa que em algum tempo atrás nossos corpos estavam em zoológicos, zoológicos humanos, o que a escravidão fez com a nossa dignidade, com a nossa humanidade... Então [esse] é um processo pra nós essa retomada do nosso corpo, assim, sabe? Do nosso corpo, da nossa dignidade, da nossa cosmovisão, da nossa espiritualidade, entendendo que até o formato do nosso corpo tem a ver com uma ancestralidade, com toda uma tecnologia que foi desenvolvida há milhares de anos atrás. O formato do nosso nariz, o nosso tipo de cabelo, o tamanho das nossas costas, né? O nosso formato dos seios, tudo isso aqui é um aprimoramento tecnológico. O nosso corpo é uma tecnologia em processo, e quando a gente aprende sobre isso, a gente fala “caralho, meu corpo é perfeito!”, sabe? A gente para de ficar se sentindo mal porque nossa bunda é grande, ou porque o peito é grande, ou sobre tudo que não parece caucasiano. A gente para de se referenciar, de nos referenciar a uma estética, a uma anatomia de um corpo que não é nosso e nem dos nossos ancestrais... E vê que o nosso corpo não é um problema, de que não tem nada errado com a gente. Então tem muito a ver com isso, assim. E seja nos corpos negros, nos corpos trans, nos corpos intersex, de entender o quanto faz parte de uma diversidade da própria natureza da qual fazemos parte. Então tem a ver com essa humanização que eu tento trazer no meu trabalho, assim. E hoje eu começo a pensar sobre o que é humanização, já que a própria ideia de humanidade é uma ideia branca, foi criada exatamente pra dizer quem era humano e quem não era, pra dizer que o branco europeu é humano, pra desvalidar os outros corpos que não são brancos e europeus como não-humanos e assim poder escravizar e fazer todo tipo de práticas absurdas. Então eu ainda estou pensando assim: o que é ser humano? E por isso que agora meu trabalho também tá entrando em outro caminho, assim, de buscar uma conexão com a natureza, entendendo que a gente é mais um ser vivo nessa natureza, de que esse humano também tem a ver com essa separação do homem que domina as águas, que domina as folhas, que domina a terra, que domina o mundo. E que isso não faz parte também da minha própria filosofia, do que meus próprios ancestrais, tanto negro quanto indígenas, acreditavam... Então tem a ver com isso, assim, mas que em algum momento, naquele momento, pra mim era importante também dizer o quanto nós somos humanos – humanos no sentido de que somos diversos, de que temos falhas, de que somos um corpo orgânico que se relaciona com o meio, com a terra, com o ar, com a água — e é mais ou menos isso que eu tento trazer no meu trabalho. E falando ainda que corpo não é só corpo, né? Nosso corpo é uma herança. É uma herança de muitos povos, entendendo que a gente é descendente de várias etnias indígenas, de várias etnias de África, então isso aqui (aponta o próprio corpo) é resultado de muita coisa, né? Tem muita coisa atrás disso aqui. Então é isso, o corpo não é simplesmente um corpo, é uma tecnologia de sobrevivência, é uma tecnologia de como viver nesse planeta que foi feito exatamente pra gente. A gente não precisa de máscara, não precisa de máquina pra respirar... Tá tudo aí, né? As frutas, a água, os alimentos, a terra que nos mantém firmes ligades como um ímã a ela, o oxigênio, tudo isso a que temos direito. Tudo é feito pra nós, não só para nós, mas para todos os seres vivos. Porque nós não podemos esquecer que somos parte de uma espécie animal: mamíferos terrestres. Os animais também sabem disso, só a gente que acha que é um outro ser, assim, muito diferentes de todo o resto, e que tudo foi feito pra nossa dominação. São coisas que eu venho aprendendo muito com Ailton Krenak, Davi Kopenawa, com os povos indígenas, Tatiana Nascimento. Eles estão nesse trabalho, assim, de me chamar pra terra (sorri). Pra gente se recolher à nossa insignificância no mundo e também ter autorresponsabilidade. Então é um processo, assim, que a gente vai reinventando, se construindo e desconstruindo. Eu ainda não sei onde exatamente nós vamos chegar, mas mudar também é sempre parte dos nossos processos, então esse processo do corpo humano, de entender a gente enquanto humanos, enquanto parte também de uma espécie, é importante porque a gente é animalizado o tempo todo, a gente vê isso até nos esportes, acho que mais ainda nos esportes, quando atletas negros vencem olimpíadas e são chamados de feras, de bichos, ou mesmo quando... Tem uma atleta, esqueci o nome dela, ela é corredora. Ela foi desclassificada. Ela venceu uma olimpíada e foi desclassificada porque o corpo dela produz muita testosterona, então até essa coisa hormonal precisa entrar em um padrão, porque um corpo feminino não pode produzir muita testosterona, né? Então a gente vive dentro de um mundo muito cagado, no sentido de não entender o que é diversidade, o quanto a gente funciona de forma muito particular também, né? Que nem sempre quer dizer individual ou única, mas reflete muito sobre muitos outros corpos também. E a gente fala de corpos negros, que por muitos anos tiveram uma alimentação, um cuidado específico, muito diferente do que temos atualmente, desde o consumo do leite, que aprendemos com os brancos, e por isso somos o povo que mais tem intolerância a lactose, entre outras coisas. Então é escuro que um corpo negro no mundo é um outro corpo. Não dá pra simplesmente colocar um corpo branco e um corpo negro e dizer que somos iguais, porque não somos iguais, e eu acho que é importante a gente entender que a nossa luta não é pra ser igual. Eu não quero ser igual a sapatonas brancas, a lésbicas brancas, a pessoas brancas. E tá tudo ok com isso. Então tem muito a ver com isso. Não sei se deu pra entender. Eu comecei meu trabalho na busca pela humanização dos corpos que historicamente são desumanizados, mas que agora eu vejo que essa humanização não leva a lugar nenhum na real.




Para ler a entrevista completa, basta clicar no link a seguir e fazer download através da Revista Brasileira de Estudos da Homocultura: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/rebeh/article/view/12809



Conheça Ani Ganzala e o seu trabalho através do perfil no Instagram: https://www.instagram.com/ganzalarts/

 
 
 

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