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Cheryl Clarke e as reivindicações do espaço

  • Foto do escritor: Lab Rachadura
    Lab Rachadura
  • 16 de fev. de 2024
  • 2 min de leitura

Atualizado: 19 de mar. de 2024




Lendo os poemas de Cheryl Clarke sempre me lembro do quanto a geografia está trançada à minha experiência, à construção das minhas análises e, em alguma medida, à maneira como sinto o mundo. Geografia como ciência, neste caso, porque o que me toma é o olhar para o espaço e o modo como, a todo momento, viver como uma lésbica negra, como demonstra Cheryl, é reivindicar o lugar, reivindicar a rua, reivindicar a cidade.


Trago aqui três poemas, querendo trazer alguns outros (a exemplo do que citei no meu livro para falar sobre a presença de mulheres negras em praças públicas) como um pequeno impulso para a reflexão.


Quem tem direito às ruas, a propósito?


Quais são as experiências produzidas para e por lésbicas negras na cidade? Quais são os espaços acessados por nós, mulheres negras, e em quais condições?




I.


ESTAMOS EM TODA PARTE


e as pessoas brancas ainda não nos veem.

Nos empurram das calçadas.

Nos tomam por homens.

Esperam que a gente dê nosso lugar no ônibus.

Desafiam com sua expressão.

Não temem em grupos.

E assim o brutal mano a mano.

Como um roteiro de telejornal, toda transação frustra

a fúria. De mãos dadas comigo

você me aconselha

a não deixar que se metam entre nós

a não deixar que se metam entre nós na rua.

Somos atingidas por loucos de guerra

que gravam seus tiroteios em toca-fitas estéreos.


(Cheryl Clarke, p. 115)




II.


EU VENHO PRA CIDADE


por proteção

e pra tentar testemunhar as densas transações

entre mulheres

e mulheres

e dançar com a minha cabeça.

Meus passos são calculados

pra dar no pé direito

e conter os movimentos do quadril.

A cidade fumaça de expectativas

e com cheiro de mulheres

querendo mulheres.

Eu me apaixonei seis vezes nos últimos seis meses

e não cansei de tentar ainda.


(Cheryl Clarke, p. 85)




III.


CARNE DE LIBERDADE

(para Assata)

 

não tivesse você escolhido a perigosa empresa da

liberdade, poderia estar caminhando descalça nas

montanhas rubras da Carolina do Norte de mãos dadas

com Kakuya em vez de assumir disfarces e alcunhas

viajando por estações de metrô acampando em

território aborígene sagrado.

poderia ter sido uma professora rural

estudante de graduação

organizadora comunitária

em vez de conduzir rotas secretas

de fuga

com a imagem nos correios

ou em cartazes rascunhados às pressas em prol

da libertação.

 

você poderia ter continuado a se permitir aulas de violão

escrever poemas políticos

ou se tornar uma figura pública

em vez de uma ex-presa política

fenômeno paradoxo da ironia

carne de liberdade.


(Cheryl Clarke, p. 63) 





Todos os poemas foram traduzidos por Cecília Floresta e publicados no livro “Vivendo como uma lésbica”, pela Editora A Bolha – apoiadora da Lab Rachadura.



Para adquirir o livro, acesse o site: https://abolha.com/loja/vivendo-como-uma-lesbica-2/




Referências da imagem:


Fotos: Reprodução

Colagem: Lab Rachadura

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